19 de março de 2007

Insônia

Que tipo de olho é esse o meu que não fecha?

Afeta anima a tediante noite

Antes não quisesse fechá-los - penso eu -

E lá se vão por água abaixo horas de tentativas

Levanto e vou até a cozinha

Derrepente a cachaça desemperra essas engrenagens oftalmológicas

O complemento de passas lhe davam um quê de vinho do Porto

Dos que vêem esquentando o peito

Num gole de inspiração

Passo da inquietação para a conformação e vice versa

Afrontando o final de noite, praticamente perdida entre o travesseiro e a televisão

Me encorajo com um papel e uma caneta na mão

Refletindo o que há na ambigüidade, na diferença que se faz ou não se faz

Nas disparidades do mundo dialético

Desperto dormindo

Norte nordeste Sul sudeste

No meio de tudo e longe de todos, no limite do perto inalcançável, o centro-oeste

E não vejo a hora do alvorecer azul de escuro a claro

O estopim de quem acorda de um sono profundo

E não prega os olhos até a próxima insônia

Gustavo Paiva Queiroz

4 de março de 2007

Re-xistência

Existir e ter noção tanto da ação, assim como do fim desta ação me açoita o peito. Mais do que isso, ter a coragem de existir não somente pelo simples fato de se encontrar nesta situação além de saber que estou vivo e que morrer pode não ser apenas carnal. Para morrer basta bem menos que estar vivo – ao pé da letra. Justo quem na juventude esteve vivo de verdade hoje pode estar velho e falecido sem ter passado um ano. Ele apenas parou. Parou rodou, rodou e rodou mantendo-se no mesmo lugar como se um compasso inteiro pudesse tirá-lo da inércia. E ainda em chamas, pode estar a alma de quem mesmo em cova se mantém em movimento multidirecional. Sem parágrafos, conciso me mantenho para não perder o fio da meada na dinâmica. E nó por nó se trançam fios que se transformam em casacos e mantas nas mãos de quem não pára. Cada nó acompanha seu vizinho de mãos dadas com muita força cobrindo o corpo em movimento sem se abrirem, protegendo o peito do vento.

Gustavo Paiva Queiroz

2 de março de 2007