31 de janeiro de 2007

Abordagem

– Perdeu mané!

– Quê?

– Assalto, entrega tudo – ele decreta.

– Que moral é essa malandro? Como você vem decretando assalto?

– E é bom entregar logo se não eu te prendo – mostrando então a arma e a algema.

– Onde já se viu bandido anunciar a prisão da vítima?

– O paspalho nunca viu? Você ta precisando ver mais televisão...

– Como assim? Você está me deixando confuso. Não vou entregar nada!

– Quer dizer que nunca te tiraram dinheiro assim? – com a cara mais lavada – Na base da prisão todo mundo entrega e fica quietinho, é só você seguir o exemplo.

30 de janeiro de 2007

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente


E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm


E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Estrelas

Antecede o nascer do sol

Lá no céu da lua

Permanecem estrelas soltas

E cá no céu da Terra

Estrelas andam acorrentadas

À sóis que castigam couros

E de carne sois

Sois vós da noite

De mil e uma sem história

De mil e uma sem juízo

De mil e quantos forem

A juventude e a beleza

De ninguém que seja ela

Que seja apenas aquela

Daqueles anônimos

Gustavo Paiva Queiroz

29 de janeiro de 2007

Fantasmas Urbanos

No centro da pólis cheio

Em todo o canto o mau cheiro

Multidão corre e corre

No tempo sem tempo

Onde vale cada momento

Trabalhador vigia trabalhador

Se move o trator,

Mais barulho faz o motor

- Que?

- Esquece...

A cena que aparece

Um corpo estendido no chão

Foi dar uma de machão...

Não existe mais homem forte

- Será?

Bala achada ou perdida

Bela capa de jornal

Entregue antes do sol matinal

Na porta do pequeno burguês

Que lê a pseudonotícia,

Tomando seu pseudocafé,

Vivendo sua pseudovida,

Regrada a burocracia

E seguida por toda a burguesia.

A juventude perdida

Não sabe se rumina ou se raciocina

Trim! Trim! Trim!

São sete da matina,

Segunda-feira

Se ajuste a rotina.

Gustavo Paiva Queiroz

Entrega

Intriga entrega

Não me entrego ao que me resta

Mas busco mais do que me presta

Produzo mais do que se atesta

Trabalhador informal

Que nem pode pensar em passar mal

Intolerável perda de tempo

Capaz de escravizar a mente de quem sente no bolso

Quando na infância perde fatia do bolo

E não chora menino,

E não chora adulto

E quando chora?


Gustavo Paiva Queiroz